

Sobre as músicas
A intenção desse projeto, além do simples (e imprescindível) deleite estético musical, é a de apresentar músicas autorais valorizando os ritmos tradicionais brasileiros e de criar um repertório moderno para ser tocado por músicos e estudantes, disponibilizando partituras dos arranjos, playbacks, e vídeos. Procuramos considerar tanto pessoas acostumadas com a tradição oral como pessoas que estão habituadas com a leitura de partituras. É um projeto para todos que tiverem interesse em se aprofundar nas técnicas para cordas brasileiras ou que queiram se aventurar nesse repertório.
A imagem sonora do álbum pretende ser fiel a uma apresentação nossa, ou seja: Vanille à direita e Ricardo à esquerda. Tomamos esse cuidado por tocarmos instrumentos com timbres muito parecidos.
Como tocamos 10 instrumentos diferentes ao longo do disco, convidamos você a olhar a página sobre os instrumentos.

01
INTRODUÇÃO ARCOS BRASILEIROS - improviso 1:23
Bem-vindo ao nosso universo, com este diálogo entre a rabeca e o violino.
Ricardo: rabeca 5 cordas (Rabeca São Paulo)
Vanille: violino (ver a página os instrumentos)
02
MARACATÚNGARO- Ricardo Herz 2:37
R: Essa composição veio de uma encomenda: a pessoa queria uma homenagem ao seu marido, que é húngaro e adora rabeca e música nordestina. Eu já tinha na gaveta um forró começado e resolvi misturar ele com uma escala típica Húngara que tem uma sonoridade bem “Europa do Leste". Como “levada” (claves rítmicas), pensei em usar o maracatu - um ritmo de Pernambuco, que se mistura muito bem com o forró e nasceu essa música nova, o "Maracatúngaro”. O forró inicial ainda aparece rapidinho no meio dela. Quem achar, ganha um prêmio! Como instrumentação, escolhemos essa mistura de rabeca e violino. Nessa versão deixamos vários momentos de improviso, como a introdução e uma sessão no meio.
Ricardo: rabeca 5 cordas (Rabeca São Paulo)
Vanille: violino (André Amaral, SP)


03
SEU DOMINGOS - Ricardo Herz 2:55
R: Essa toada surgiu assim, de uma vez. É uma homenagem emocionada a um dos músicos mais inspirados e inspiradores que já passaram nesse mundo, o grande mestre Dominguinhos. Eu tinha acabado de ler no jornal que ele tinha entrado em um coma do qual não voltaria mais. Ele tinha nos deixado. Imediatamente peguei o violino e compus essa melodia bem nordestina. Nesse arranjo nos alternamos entre a melodia e o acompanhamento em pizzicato. A melodia veio no calor da emoção da perda. Apesar disso, a música que veio não é triste, mas nostálgica. Uma música que procura emocionar pela singeleza, como as mais belas composições do Dominguinhos.
É um dos momentos mais intimistas dos nossos shows.
04
GIRA GIRA - Ricardo Herz 5:35
R: Essa música veio da idéia de um forró bem livre, que vai se espalhando no salão cheia de piruetas e giros. Gravei inicialmente no álbum com Nelson Ayres e aqui fizemos uma versão para dois violinos bem desafiadora. Adoramos tocar essa, várias vezes ela que abre o nosso show!


05
BOINAS, BIGODES e GUARDA CHUVAS- Ricardo Herz 3:33
R: Essa é uma composição antiga, que fiz para um grupo instrumental do qual eu participei na França - o Tekerê. O nome vem das três inspirações seguintes: começa com um ijexá em homenagem àquelas descidas de violão do Milton Nascimento (boinas), depois vem para uma marcha inspirada nas melodias do Dori Caymmi (bigodes) e termina num frevo (guarda chuvas). É com ela que temos terminado os nossos shows em duo.
6 CHAMAOQUE? - Ricardo Herz 5:34
R: Esse chamamé é uma das minhas composições que tem me acompanhado em todas as minhas formações. Nasceu de uma provocação do Yamandú Costa. Uma vez ele me perguntou se eu conhecia o “chamamé” e eu não lembrava de conhecer, mas fui ver e tinha sim escutado chamamés nas minhas estadias no Rio Grande do Sul, visitando a minha família paterna. Já gravei com o próprio Yamandú, com meu trio, com o Samuca do Acordeon, com a Camerata Romeu. Todas versões bem diferentes. Nessa versão em duo dou destaque para o solo final, que fazemos nos dividindo e usando a voz juntamente com o violino. Essa idéia veio de uma idéia espontânea da Vanille que acabou virando arranjo.


07 SEGURA! - Ricardo Herz 5:23
R: Essa é mais um forró inspirado na sonoridade da rabeca transposta para o violino. Ela começa em uma tonalidade que muda o timbre do violino, justamente tentando aproximar de uma rabeca. É cheia de breques, mudanças de tonalidades e cheia de improvisos. Termina numa improvisação enérgica num forró bem rápido, quase um cavalo marinho.
08
ODEON - Ernesto Nazareth 2:49
R: A única releitura do disco. Nosso arranjo para 2 violinos deste grande clássico do choro nasceu de uma versão para violino solo que eu gravei no “Aqui é o Meu Lá". Vanille conheceu essa versão solo antes de me conhecer pessoalmente. Quando nos conhecemos em um barco indo para Ilha do Cardoso (SP) para pesquisar o fandango caiçara, ela se lembrou do vídeo que tinha visto no Youtube.
V: O Ricardo escreveu a primeira versão da partitura solo dessa música pra mim.
Fomos morar juntos, nos casamos, e depois de dois anos estudando essa música em casa, o Ricardo começou a aparecer no quarto improvisando um acompanhamento, só de brincadeira. Foi tão legal que aos poucos começamos a dividir mais a melodia e o acompanhamento, até surgir esse arranjo para dois violinos. Considero essa música como o arranjo “ao quadrado” do Ricardo, o arranjo do arranjo e representa para mim a apoteose do seu trabalho técnico no sentido que junta absolutamente tudo: ritmo, melodia, harmonia, suingue, até improvisação e o mais importante… a brincadeira.

09 MOURINHO - Ricardo Herz 5:12
Vanille e Ricardo : rabecas 5 cordas (rabeca SP)
19 MOURINHO - Ricardo Herz 5:33

R: Esta deve ser a música que mais gravei/toquei na minha vida. Ela foi a minha primeira composição, um forró inspirado na talvez mais icônica peça musical do movimento armorial , a “Mourão", do Clóvis Pereira e Guerra-Peixe.
V: Pesquisamos a sonoridade dos violinos e das rabecas. Por isso, decidimos gravar uma versão em duo de violinos, e outra com rabecas de 5 cordas.
R: Achamos interessante manter as duas pois assim vemos as diferenças e semelhanças dos dois instrumentos. Nessas versões nós deixamos uma parte grande de improvisação. Podemos observar também como a sonoridade e possibilidades de cada instrumento nos influencia a solar de maneira diversa.
V: Com a rabeca na mão, por exemplo, eu me sinto muito inspirada a me aproximar da sonoridade das rabecas que eu ouvi em minhas pesquisas. A ideia era poder comparar as duas interpretações. O que você achou ?
10 O REVOAR DA SAUDADE - Ricardo Herz 4:57
R: Esse é um xote inédito, que venho tocando em alguns concertos em duo. Ficou sem nome um tempinho e como brincadeira, pedimos que o público sugerisse um nome. Depois de um show com a Vanille, um amigo músico (obrigado, Cyran) chegou com esse nome. Adoramos porque traz esse diálogo poético entre a França e o Brasil.
Nesse arranjo exploramos um pouco do lado jazzístico do violino, com momentos bem improvisados.


11 NOITES PERNAMBUCANAS - Vanille Goovaerts 2:24
V: Olinda (PE) é a minha cidade do coração. Cheguei no Brasil pesquisando a rabeca e o forró e fiquei muito surpresa e impactada pela riqueza cultural de Pernambuco e, entre outras coisas, conheci o frevo.
Essa composição minha surgiu no começo de 2025 enquanto estávamos mergulhados em um repertório de frevos tradicionais que faríamos em parceria com a banda “Fios de Choro” e Antônio Nóbrega, prestando muita atenção aos arranjos das orquestras. Esse mesmo ano iríamos passar o Carnaval em Olinda. A música surgiu mesmo, num processo rápido, e sem encanar tanto.
Como eu gosto de mistura e de diálogo, o título se refere à introdução do choro do Jacob do Bandolim “Noites Cariocas” que faz também parte do repertório do Duo.
12 BOI - Ricardo Herz 2:34
R: Essa composição nasceu da vontade de prestigiar essa manifestação riquíssima do Maranhão. É baseada no ritmo de boi de matraca e foi feita para ser uma música que pode ser aprendida pela transmissão oral. A primeira vez que tocamos foi num lindo festival na Alemanha, que une um festival de violino popular e um festival de Forró, o “ForróXperience" (Leipzig Bahnhof), no qual tocamos e demos aulas nas duas primeiras edições. Nesse festival, toda a transmissão de músicas é pela oralidade. Foi um exercício muito legal, esse de compor para ser transmitido assim. Agora no disco, mesmo que tenhamos gravado em duo, ainda ouvimos com a memória de todos os violinistas do festival, com o coração cheio de nostalgia boa.
V: O Ricardo escolheu esse tom de Eb Major que a priori não é um tom associado à rabeca tradicional, mas ele queria essa sonoridade mesmo, associada à voz.
Para o arranjo da gravação, escolhemos as rabecas pelos timbres peculiares que fazem viajar na singeleza da música. O Ricardo assumiu toda a parte do acompanhamento com a rabeca construída pelos luthiers Adam Bahrami e Mateus Andrade (parceria no ateliê Rabeca SP) que tem 5 cordas (afinação CGDAE) , trazendo a referência ao tambor onça, um tipo de cuíca grave, típico do boi do maranhão.
Toquei a melodia com uma rabeca de cabaça que eu construí em 2019 durante a oficina de construção de rabeca do Ricardo Bressans (SP). As cordas são de bandolim e o instrumento tem uma sonoridade que combina bem com a delicadeza da música (GDAE).
Ricardo: rabeca 5 cordas (Rabeca São Paulo)
Vanille: rabeca de cabaça (Vanille e Ricardo Bressans, SP)


13 BORBOLETA - Vanille Goovaerts 2:56
V: Sabe o que é um lepidopterologista? É quem pesquisa as borboletas.
Depois de um show em Monte Verde (SP) que toquei esse forró, uma pessoa do público, veio, e me falou assim: “Eu sou lepidopterologista [primeira vez que eu ouvia essa palavra]. Sabia que a borboleta é um inseto bem interessante ? Porque ele tem direito a duas vidas: uma na forma lagarta e depois uma num formato de borboleta”. Essa observação ecoou bastante na percepção que eu tenho da minha vida, que passou por uma transformação significativa quando decidi me mudar pro Brasil. De lagarta francesa, a cada dia que passa, vou me transformando na Borboleta brasileira, mais leve, mais colorida, podendo voar e me conectar com toda a poesia que é a cultura popular.
Rabecas 5 cordas (Rabeca São Paulo)
14 INOCENTE - Ricardo Herz 3:45
V: Esse baião é um dos clássicos do Herz e foi gravado em vários discos com várias formações (duos com Nelson Ayres, Yamandú Costa, Ricardo Herz Trio, Camerata Romeu etc). Achei importante ele aparecer no disco porque, do trabalho do Ricardo, é a música preferida de várias pessoas.
R: A Inocente veio de uma inspiração nas músicas infantis. É quase uma música folclórica, onde prezo pela simplicidade e brincadeira.


15 MINHOCA - Ricardo Herz 3:55
R: Essa composição nasceu da ideia de fazer um “moto perpétuo”, aquelas melodias de semicolcheias que não param mais. Como diz o grande Hamilton de Holanda, uma “metralhadora do bem”. Na forma e na harmonia, é um choro, meio torto. Daí o nome Minhoca. No meio da composição, tive a ideia de incluir uma parte mais torta ainda (um 7/16) e depois um samba e ficou essa mistura… Gravei já com o meu trio e com a Camerata Romeu. Aqui vai essa versão para dois violinos em que os dois se intercalam bem dinamicamente nas melodias e acompanhamentos, do jeito que a gente gosta.
16 FORRÓ COLORIDO - Vanille Goovaerts 3:29
V: Um forró composto em uma linguagem típica da rabeca, homenageando um Brasil cheio de cores e convidando o Ijexá e as vozes a completar a pintura.
Ricardo: rabeca 5 cordas (Rabeca São Paulo)
Vanille: rabeca 4 cordas com afinação “Pernambuco” DAEB (Damião, RN)


17 SALVE MESTRES - Vanille Goovaerts 1:33
V: Aqui vai uma homenagem ao Mestre Luiz Paixão, grande referência da rabeca pernambucana, que tive a oportunidade de conhecer em 2018 e com quem tive a honra de fazer os meus primeiros passos na rabeca, estudando com ele na sua casa. Eu ainda nem falava português, foi um encontro de observação e intuição.
“Salve Mestres” é a primeira música que compus pensando na linguagem do forró e percebi que surgiam várias outras inspirações de outros artistas brasileiros (Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal entre outros) mas não só: artistas de jazz do mundo inteiro que eu escutava quando estava me formando no Conservatório de Jazz na França.
Essa música traz várias línguas que mostram como o trabalho dos mestres e outros artistas nos influenciam e acabam fazendo parte intrínseca da gente.
Ricardo: rabeca 5 cordas (Rabeca São Paulo)
Vanille: Rabeca 5 cordas (Valdecir da Rabeca, PI)
18 CAPOEIRA - Ricardo Herz 3:24
R: Essa é uma homenagem a este esporte tão brasileiro, que une tradição, saúde, mandinga, luta, música. Uma típica manifestação cultural afro-brasileira. Nessa composição me inspirei no toque de iúna (gravado pelo Mestre Dalua e Felipe Roseno para o app Ebatuque). O acompanhamento vem desse toque de berimbau. Esse toque tem uma particularidade: tradicionalmente só é tocado para mestres jogarem e com ele não vai nenhum canto. Para a música eu tomei a liberdade de fazer uma melodia inspirada em outros toques da capoeira, como o do São Bento Grande. Essa é a única faixa do disco que gravamos em mais de dois instrumentos. O arranjo saiu de uma idéia da Vanille inspirada na dinâmica da roda de capoeira: uma pessoa puxa o canto, todos respondem. Dois jogadores ficam no centro, mas o jogo é comprado por um outro e os pares vão variando.
V: Usamos todas as rabecas disponíveis da casa (8 no total) mais um violino, cada instrumento tendo uma personalidade, um timbre bem marcado. No dia a dia, não tocamos com todas, mas para o disco,todos entraram no jogo!
Usamos 10 instrumentos (1 violino e 10 rabecas)







